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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Baco

"O planeta seguinte era habitado por um bêbado. Esta visita foi muito curta, mas mergulhou o principezinho numa profunda melancolia.
– Que fazes aí? perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.
– Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre.
– Por que é que bebes? perguntou-lhe o principezinho.
– Para esquecer, respondeu o beberrão.
– Esquecer o quê? indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.
– Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.
– Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.
– Vergonha de beber! concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.
E o principezinho foi-se embora, perplexo.
As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a viagem.”

Quando li esse trecho de O Pequeno Príncipe, lá em 2012, as vésperas do fim do mundo, quando ainda cursava a faculdade de Letras, e tentei, pela primeira vez, apreciar uma obra francófona em seu idioma original, o achei bem interessante. Nunca imaginei, no entanto, que o entenderia empiricamente tão bem quanto hoje. Todos os personagens do romance representam, em maior ou menor grau, características que nós apresentamos, ao menos em alguma fase da vida. E mais do que nunca, tenho certeza que, de certa forma, hoje sou o bêbado.

(Legal que desde que eu escrevi esse texto, eu acabei me tornando o bêbado literalmente também, HA!



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